terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pré-Estréia de Pretensas Virtudes - Primeiro Livro

Capa do Livro - obra do grande artista plástico Betto Pereira


... À época, como quem procura, começa a escrever. Num primeiro momento não reconhece em sua escrita um trabalho. Nem mesmo se pensa escritor. Apenas quer dar livre curso aos sentimentos, mostrar não ser um vagabundo qualquer, convencido está de poder provar que também seus erros e defeitos têm valor. Se no mundo à sua volta figuram falhas condenáveis
, sente em si o embrião de um outro no qual estes mesmos erros e defeitos serão essencias para dá-lo vida e protegê-lo. Refugia-se neste seu mundo. Não vê outro meio de seguir livre. Não quer retornar à rotina dos quartéis, nem se ocupar com nada que lhe amesquinhe a vida. Não está disposto a se submeter a um emprego regular de horários fixos. A simples ideia de passar um dia confinado num escritório, sujeito aos mandos e desmandos de um chefe, é-lhe abominável. “Só faço isso se não tiver outra alternativa.”. A mulher balança a cabeça, parece não entender, mas o apóia. Às vezes, ele dá algumas aulas particulares, mas é o salário dela que arca com as despesas do casal. Faz dois anos que se desligou do IME e nada sugere que não esteja perdendo tempo. Os fatos não sustentam sua versão de ter caído em algo maior, antes corroboram a opinião corrente de que sem diploma ele não será nada. “Já poderia ter concluído a graduação e estar empregado.” “É inteligente”, atestam, “Ou não quer nada com a vida, ou está se sabotando.". "Se não vai trabalhar, ao menos deveria procurar um psicólogo. É evidente que há algo errado.” Não lhes dá ouvidos. Sua recusa a se submeter a um analista não é menos veemente que a de se submeter a um chefe. A pressão ao redor recrudesce, mas não cede. Sente que não pode recuar. Passa os dias lendo e escrevendo. Stirner, Hermann Hesse, Lima Barreto, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Henry Miller, Dostoiéviski e outros artistas lhe fazem companhia. “ Mas estão todos mortos!”. “Não para mim”. “ Você precisa de amigos de carne e osso. Não sente falta de gente?”. Pouco a pouco procura menos os amigos. Pilhas de livros se acumulam pelo chão de seu quitinete em Botafogo. O que ganha com aulas particulares, gasta em sebos e livrarias. Ninguém compreende o que ele está fazendo. Novas censuras se somam às antigas. Um dia acompanha a esposa a um almoço de família, e um dos convivas - o mesmo que anos depois, ao tomar conhecimento de seus primeiros êxitos no mercado financeiro, o puxou a um canto daquela mesma sala para lhe pedir que aplicasse suas economias em ações - não hesita em disparar: “Não pensa em seus pais? Não vai se formar?” Não tem a menor intimidade com essa pessoa, nem com ninguém ao redor daquela mesa para que se permitissem semelhante atrevimento. Aquilo o pegou completamente desprevenido. Sua impressão foi de alguém ter sacado um revolver e o descarregado em sua pessoa à queima roupa, sem a menor chance de defesa. Logo entende o sentido das perguntas. Nada tem a ver com seus pais. Além de vagabundo, agora é também parasita. Vivendo às custas da mulher, incapaz de se sustentar, por vezes, não se sente um homem de verdade. Sem dinheiro, é visto com desconfiança. Torna-se um alvo, um homem marcado. Está exposto a outras condenações sumárias. Sua situação o envergonha, o revolta e o humilha. Procura uma defesa, mas não fará como todo mundo. Não correrá atrás de titulos acadêmicos. Não correrá atrás de emprego.  Sabe que não são estas recusas que fazem dele um alvo. O que faz dele um alvo é não ter dinheiro. Sabe que para calar essa gente, precisa falar a mesma língua. Precisa de dinheiro. Se tiver dinheiro não lhe ousarão apontar o dedo. Só que não fará como eles. Não procurará seu ganha-pão no mercado formal. Encontrará um outro jeito. Começa a separar trabalho de dinheiro. Não são a mesma coisa. Trabalho é o que o faz sentir-se vivo, o que dá sentido à sua vida. Dinheiro é o que paga suas contas, não é o que tem em vista. Não é o que determinará se ele seguirá ou não o que sua intuição lhe diz. Não ter dinheiro não será sua desculpa. "Não farei como todo mundo!". Desde pequeno observa com repugnância as pessoas se acomodarem a vidas que não lhes agradam apenas por dinheiro. Vê as pessoas se matando por dinheiro. Está decidido a não seguir o mesmo caminho. Foi por isso que abandonou o colégio técnico. Foi por isso que jamais se lamentou por ter se desligado do IME ou abandonado a UFRJ. Teme perder vitalidade fazendo o que não lhe propicia prazer. Teme reduzir sua vida a dinheiro e títulos acadêmicos. Os caminhos tradicionais não lhe interessam. Se neles prosseguisse seria por mera sujeição às convenções ou ao dinheiro. Seria por preguiça ou covardia. Teria a casa dos sonhos, carros do ano, um belo álbum de viagens, mas não teria uma vida de verdade. Seria um escravo moderno. Seria o seu fim. Mil vezes seguir sendo alvo de críticas a ostentar as pretensas virtudes dos escravos modernos. É evidente que não o agrada não arcar com suas próprias despesas, mas sua decisão de não repisar os mesmos passos de seus amigos prevalece. Surge o impasse. Enquanto procura solucioná-lo, aprende a ser paciente, a esperar, e com quanta impaciência espera. O dinheiro é seu calcanhar de Aquiles. Tudo parece se resumir a tê-lo ou não. Senhor dos destinos, é o todo-poderoso. Todos o idolatram. Para os pretensos homens, é o tamanho do pênis. É sinal de virilidade. Para as pretensas feministas, é o símbolo do empoderamento feminino. Para os pretensos revolucionários, é causa e consequência das misérias humanas. É a medida do homem. Em seu nome desfilam numa marcha insensata a esquerda e a direita, os neoliberais e os marxistas. Vê os amigos caírem de joelhos, sujeitarem-se, brindarem e se embebedarem em nome desse bezerro de ouro. Orgulhosos de si mesmos, não resistem ao seu poder de sedução: tornam-se vassalos dos poderosos. Sacrificam suas vidas às grandes corporações. Estão ganhando cada vez mais dinheiro. “Evoluímos!”. Os anos passam e o passado retorna. É sempre o mesmo enredo. Só o cenário muda. O tempo das Quatro Rodas e dos posters das coelhinhas da Playboy ficou para trás. Agora colecionam prostitutas de luxo e carros importados. Acreditam ter encontrado o caminho das pedras. Acreditam terem se tornado homens de verdade. Querem ensiná-lo o caminho. Insistem em mostrá-lo um atalho. Numa festa de casamento o convidam para acompanhá-los a um puteiro. Noutra, chamam-no ao estacionamento para ver os carros da galera. “Em pouco tempo você poderia estar como a gente.”. Ele desdenha. Continuará a pé. Desconfia de atalhos. Não ignora o preço de suas escolhas. Mais uma vez, não se deixa seduzir. Sente o que está por trás de tudo aquilo. Nada tem a ver com a paixão por carros e mulheres. Novamente, não os seguirá. É apaixonado e ambicioso, mas suas paixões e ambições são de outra natureza. Os amigos se ofendem. Não se esforça em se explicar ou esconder a repugnância por toda aquela ostentação. Ele os toma por presunçosos. Eles, por outro lado, o veem como fracassado. Se afastam cada vez mais. Falam línguas diferentes. Não se compreendem. Não compreendem que as ambições de um homem podem ser grandes sem gravitarem em torno do dinheiro. Não faz dele seu ídolo, nem o desejo de possui-lo se torna sua mola propulsora. Não vê sentido em ter cada vez mais à custa de sua liberdade. Se não é hipócrita tampouco é ingênuo: sabe que precisa de dinheiro se não quiser se escravizar. Sabe que precisa de dinheiro para se defender. Decide investir o que ele e a mulher conseguem economizar. O Brasil vive o boom das commodities, e ele descobre a Bolsa de Valores. Será a solução de seu impasse. Enquanto vai se familiarizando com o mercado acionário, segue lendo e escrevendo. Continua errando. Dúvidas e angústias o invadem. Os resultados nem sempre são favoráveis, mas insiste. Aos seus olhos se defende com a ideia de que um dia será recompensado. Será sua vingança e redenção. Agarra-se a essa ideia. Sua realização se torna seu único desejo e desespero. Foi tudo o que lhe sobrou. Absolutamente despojado do supérfluo, faz as apostas de sua vida. Novamente não há plano B. Parece estar revivendo os anos anteriores ao seu ingresso no IME. Novamente o chamam de vagabundo. Novamente a procura de outros como ele. Novamente em busca de algo maior que dinheiro. Sempre essa busca de algo maior. É sua ideia fixa. As semelhanças entre o presente e o passado se sucedem e alimentam sua esperança de que tudo correrá bem. O passado continua presente em sua vida. Tudo recomeça. É o Eterno Retorno. Novamente, uma ruptura radical se aproxima. Sua intuição lhe diz que logo deixará o Rio. “Para onde?”, pergunta sua mulher. Não lhe diz. Não tem a menor ideia de seu proximo destino. Sabe apenas que a vida o espera em outro lugar. Seu horizonte começa a se modificar. Sente uma irresistível atração em aventurar-se em sua direção. Não pode evitá-la, não quer evitá-la. Aos poucos entrega-se à sua intuição. Reencontra a fé em si mesmo. Confia em seu destino. “Ele mudou depois que saiu do IME. Parece ter perdido a razão”, comentam os amigos. Um vazio se forma a sua volta. Tempestades se anunciam. Sente estar sendo testado. Os meses passam, e as infelicidades e incertezas não se desfazem. Seu inferno parece não ter fim. Às vezes o nevoeiro se torna menos denso e pode ver alguma coisa. Nunca é tanto quanto gostaria, mas é sempre o necessário para continuar. Foi assim naquela tarde de novembro quando sua mulher ligou do trabalho, com a voz embargada, comunicando que ele recebera uma menção honrosa por seu prematuro livro de crônicas. Ao desligar o telefone, chora, novamente um copioso choro de felicidade e alívio. Sua intuição não o enganou. A vida não o abandonou. Sente ter alcançado o ponto em que não lhe será possível voltar atrás. Ou se tornará escritor ou nada será. Passa a rechaçar com mais veemência a ideia de procurar emprego e o argumento de que um diploma não o atrapalhará a escrever. Começa a lhe ficar claro o porquê de passar tantas horas lendo e escrevendo quando todos lhe cobravam que desse outro emprego ao seu tempo: quer liberdade para seguir alimentando e protegendo o que acredita ser seu autêntico destino. Arrastado por um impulso decisivo não percebera, mas naqueles dias de angústia, vividos entre leituras descosidas e esboços autobiográficos, caminhava em direção a sua própria linguagem. O que sempre buscou assume contornos inesperados: nunca um objetivo definitivo, antes uma conquista diária. Se parecia errar era porque não tinha consciência de tudo o que lhe sucedia. Revisitando seu caminho tem a impressão de o tempo todo ter sido conduzido por algo maior do que ele próprio. Seria pretensioso dizer que foi ele quem escolheu seu destino. Ele não escolheu o que se tornaria. Apenas obedeceu algo em si mesmo. De um jeito ou de outro, estamos sempre obedecendo. É assim que chegamos aonde chegamos. Foi assim que chegou ao seu livro. Se hoje não se imagine outro, não se queira outro, jamais se pensou escritor. Simplesmente aconteceu...

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Making a Book

Dedicatória

Dedica seu livro a todos que lhe cruzaram o caminho e sem desconfiarem de coisa alguma estimularam-no a escrever - em especial àqueles com os quais conviveu numa prestigiada instituição militar de ensino. Orgulhava-se de se pensar um deles até o dia em que percebeu que não era: apenas estava entre eles. Se com essa percepçao ainda não viesse a saber quem era e o que faria consigo mesmo, soube, entretanto, quem não era e o que não faria.

Nos anos seguintes viveria os silenciosos e profundos desdobramentos de sua descoberta. Considera-a a mais significativa que fez sobre si mesmo, pois ao mesmo tempo que lhe subtraiu o alento para seguir na companhia de seus amigos encorajou-o a enveredar pelo solitário caminho da escrita, onde suas descobertas teriam continuidade e sua vida, um sentido. 

Tivesse a ignorado, ignoraria a si mesmo. Seria mais um a engrossar a multidão dos que batem ponto num emprego qualquer, desanimado e sem perspectivas, desperdiçando sua vida fazendo o que não acredita apenas por dinheiro ou para dizer aos outros que havia se tornado alguém. 



 


"POR NÃO COMPREENDERMOS A SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS, NEM EU NEM MEUS AMIGOS, UMA COISA SE TORNOU MUITO CLARA: QUE HÁ MANEIRAS DE NÃO COMPREENDER E QUE A DIFERENÇA ENTRE A NÃO COMPREENSÃO DE UM INDIVÍDUO E A NÃO COMPREENSÃO DE OUTRO CRIA UM MUNDO DE TERRA FIRME AINDA MAIS SÓLIDO QUE AS DIFERENÇAS DE COMPREENSÃO. TUDO QUANTO OUTRORA EU PENSAVA TER COMPREENDIDO DESFEZ-SE E EU FIQUEI COMO UMA LOUSA LIMPA. MEUS AMIGOS, POR OUTRO LADO, ENTRINCHEIRAVAM-SE MAIS SOLIDAMENTE NA PEQUENA VALA DE COMPREENSÃO QUE HAVIAM ESCAVADO PARA SI PRÓPRIOS. MORRERAM CONFORTAVELMENTE EM SUA PEQUENA CAMA DE COMPREENSÃO, PARA SE TORNAREM CIDADÃOS ÚTEIS DO MUNDO. SENTI PENA DELES E SEM DEMORA ABANDONEI-OS UM A UM, SEM O MENOR PESAR."

HENRY MILLER



Paris, outubro de 2018



sexta-feira, 23 de março de 2018

Desconstrução

Decide preparar uma xícara de café. Enquanto espera a água ferver, dá uma espiada no jardim em frente ao seu apartamento. Está nevando novamente. Lembrou-se da senhora que mora ao lado dizer que este mês de março está sendo atípico em Paris. Não era para estar nevando. Não a questiona. Para ele, tudo parece atípico neste momento de sua vida. Sente que há algo acontecendo consigo em Paris. Não sabe dizer o que é, mas deseja que continue. São 4:14. A mulher e o filho estão dormindo. Daqui a pouco acordarão. Há horas está sentado próximo ao aquecedor. Não consegue dormir. Seus olhos vão de um lado a outro relendo os capítulos anteriores. Está satisfeito com o que escreveu ontem embora não ignore que dali a instantes deixará de estar. É sempre a mesma coisa. Por hora, no entanto, ainda acha que está bom. Conseguiu encontrar o ritmo. No texto que começou a escrever não o encontrou. Sabe que está perdido. Relia os anteriores na esperança de reaver o fio da meada. Em vão. Melhor preparar o café e colocar uma música, pensa. Faz parte de seu ritual. Acredita que a música e o café o ajudam a encontrar o ritmo de um texto, e com ele, as palavras. Foi assim à tarde, quando estava num Café próximo ao seu apartamento. Ao entrar, percebeu que tocava Cake. Há anos não ouvia a banda, acha que desde que saiu do IME. Uma torrente de lembranças sobreveio-lhe. Jamais esqueceu as rodas de samba na Praia Vermelha, as viagens pelo país com os companheiros de quarto, o contato com suas famílias e o deles com a sua, as madrugadas solitárias nas salas do terceiro andar se preparando para as recuperações orais, os primeiros namoros, as dores de cotovelo, as conversas íntimas no banheiro e nos bancos do alojamento, os concertos no Municipal, os bailes na Rocinha e na Penha, a vaquejada em Xerém e as paradas obrigatórias no Select ou na Kombi do Chico para matar a fome após as agitadas noites na Cozumel, no Guanabara e nas boates de Copacabana. Fora profundamente marcado por tudo isso, e por todos aqueles finais de semana de serviço ou detido no quartel, pela raiva, dor e alívio ao trancar matrícula e, mais tarde, por ocasião de seu desligamento. Todas essas experiências desconstruíram-no. Jamais seria o mesmo. Vivendo tudo aquilo, ia deixando muita coisa para trás. Perdia a inocência. Anos mais tarde, procuraria algo que o ajudasse a se reconstruir. Na época, não tinha consciência de nada disso, apenas ia vivendo. A semente, entretanto, estava sendo semeada. Aos poucos, germinaria entre a monotonia e disciplina de um quartel e a pluralidade da noite carioca. O escritor nasceria. Escrevendo se reconstruiria. Deve isso à cidade, deve isso ao IME, não nega. Talvez não escrevesse se não tivesse passado por tudo aquilo. A mãe preferia que não tivesse. Agora que é pai a compreende. Se dependesse de sua vontade, ele teria ficado perto de casa indo para o ITA. Desconfiava que o filho não daria certo no Exército. Estava tão certa quanto errada. Não considera que ter ido para o IME foi um erro. Se foi, era um erro que tinha de cometer. Era o que queria. Nostálgico, sensibilizado por todas aquelas lembranças, disse à mulher que voltaria àquele Café no dia seguinte. Planejava escrever numa daquelas mesas. Não imaginaria que seria pego de surpresa. Foi. Desde o início a escrita o pega de surpresa. Chegou ao Rio achando que se tornaria engenheiro militar. Saiu de lá decidido a se tornar escritor. Não estava em seus planos, nunca esteve. Simplesmente aconteceu. Mal havia pedido dois expressos quando sentiu que um texto surgia. Deveria tê-lo rabiscado ali mesmo, mas deixou para depois. Tem a mania de deixar tudo para depois. Agora está batendo cabeça atrás do que horas antes espontaneamente veio até ele e recusou.
Continua...

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Aprendizado




Há quase seis anos Theo nasceu. Antes de seu nascimento já era da opinião que seria mais importante cuidar dele em seus primeiros anos de vida do que me dedicar a qualquer outra atividade, mesmo as que me são caras, como a escrita e a musculação. A despeito do que me aconselhavam, jamais pensei diferente. Nunca considerei a possibilidade de deixá-lo numa creche, ou sob os cuidados de uma babá. Ainda assim, somente quando o peguei no colo pela primeira vez realmente senti que não tomaria outra decisão que não fosse permanecer nos anos seguintes, ali, ao seu lado. Não apenas por ter me sentido responsavel por alguém tão pequeno e indefeso, mas também porque sempre alimentei o desejo de ter uma ligação íntima e profunda com meu filho. O preço desse tipo de relacionamento, e eu não me enganava, seria menos tempo e energia para me dedicar à escrita e à musculação. Assim, em seus primeiros meses, a propria leitura quase deixou de fazer parte de minha rotina. A disposição que me restava apos um dia corrido empregava na academia enquanto Theo, à noite, ficava com a mãe, o que me propiciava um alivio das tensões inerentes àquele periodo de adaptação - não apenas nos primeiros meses, mas anos em que minha vida havia virado de cabeça para baixo. Eu estava me tornando pai. Não se torna pai quando o filho nasce. Tornar-se pai sempre pareceu-me um processo diario, uma construção constante, como escrever ou hipertrofia fisica. Exige dedicação e amor pelo processo de aprendizado e construção porque não é facil, nem um pouco, como tudo o que exige que abdiquemos de velhos habitos e rotinas na busca de um objetivo maior.

Com o fim da licença maternidade da Namorada, meus dias passaram a transcorrer em meio aos banhos, às papinhas, às incontaveis trocas de fraldas até o ensinarmos a fazer xixi e cocô no pinico, às recorrentes preocupações em saber se estava bem agasalhado, ou se alimentando corretamente e bebendo água o suficiente. Quando sobrava algum tempo ou dormia, ou tomava banho, ou me alimentava. No seu primeiro ano de vida, se mal conseguia  ler, o que dirá escrever. Ia dormir exausto e acordava cansado, mas o que me importava era estar perto não apenas para dar-lhe carinho e atenção, mas também para dizer não sempre que fosse necessário - e como foi. Queria, sobretudo, estimular suas aptidões, dando as condições e o incentivo para que as desenvolvesse. Desejava vê-lo se sentindo cada vez mais confiante até que não precisasse mais das mãos dos pais para dar seus primeiros passos ou equilibrar-se em sua bicicleta. 

Nesta semana que marca o encerramento de seus três primeiros anos escolares, torno a sentir o quanto é gratificante a um pai acompanhar seu filho conquistando confiança em si mesmo. Ao tomar a decisão de abrir-me ao aprendizado da paternidade, não ignorava, como disse, que sentiria falta de tempo para escrever e me ressentiria da perda desses momentos solitarios sem os quais me sinto perdido. Sem escrever, temia estar me desviando de mim mesmo. Não podia imaginar o quanto estava enganado. É tudo muito intenso e difícil, como tão bem descreveu, mais abaixo, a escritora Natalia Ginzburg sobre conciliar a criação de seus filhos e o seu ofício de escrever, que não podemos ver a que descobertas essa experiencia nos encaminha. Ontem, dia em que Theo fez sua apresentação de final de ano no judô, ao ver sua garra e confiança nas lutas (link acima), lembrei-me da insegurança que sentiu ao começar numa turma de judocas mais experientes, de sua força quando começou a frequentar uma escola publica francesa, assustado, por se ver cercado de pessoas que não o compreendiam, e nem ele a elas, além de tantas outras ocasiões em que estive proximo para encoraja-lo a seguir em frente. E ele seguiu. Na noite de ontem, quando me abraçou, senti que ter sido presente e vivido intensamente a experiencia de tornar-me pai, algo indiscutivelmente tão estressante como enriquecedor, não me afastou da escrita ou da academia, como muitas vezes, desesperado, temi. Ser pai não me privou de quem sou; antes, revelou-me um pouco mais de mim mesmo. Ter tido pouco tempo para outras atividades para acompanha-lo levou-me a não perder tempo com o que não me fosse realmente essencial como organizar meu livro ou me preparar para uma competição de fisiculturismo.



"E depois nasceram meus filhos e, de início, quando eles eram pequenos, eu não conseguia entender como era possível escrever tendo filhos. Não entendia como seria possível me separar deles para seguir um fulano num conto. Comecei a desprezar meu ofício. Às vezes sentia uma desesperada saudade dele, me sentia em exílio, mas me esforçava em desprezá-lo e denegri-lo para cuidar dos meninos. Achava que devia agir assim. Passei a preocupar-me com a papa de arroz e a papa de cevada, se havia sol ou se não havia sol, se ventava ou não quando ia levar os meninos para passear. As crianças me pareciam algo muito importante para que eu me desviasse atrás de estúpidas histórias e de estúpidas personagens embalsamadas. Mas sentia uma feroz nostalgia e às vezes, à noite, quase chorava ao lembrar como meu ofício era belo. Pensava que algum dia mais cedo ou mais tarde o recuperaria, mas não sabia quando: achava que deveria esperar que meus filhos se tornassem adultos e fossem embora de mim. Porque o que eu sentia por meus filhos naquela época era uma coisa que eu não havia aprendido a dominar. Mas depois, pouco a pouco, aprendi. Nem precisei de muito tempo. Ainda preparava o molho de tomate e a semolina, mas ao mesmo tempo pensava em coisas para escrever. (...) Escrevi um conto longo, o mais longo que já tinha escrito. Recomeçava a escrever como alguém que nunca havia escrito, porque fazia muito tempo que não escrevia, e as palavras estavam como que lavadas e frescas, tudo estava de novo como que intacto e cheio de sabor e de cheiros. Escrevia à tarde, quando meus meninos iam passear com uma garota do povoado, escrevia com avidez e alegria, e era um outono belíssimo e todo dia eu me sentia muito feliz. 

(...) Assim é o meu ofício. Dinheiro, vejam, ele não rende muito; aliás, sempre é preciso fazer simultaneamente algum outro trabalho para viver. Contudo, às vezes ele rende pouco, e ter dinheiro por sua própria virtude é uma coisa boa, como receber dinheiro e presentes das mãos do ser amado. Assim é o meu ofício. Não sei muito - torno a dizer - sobre o valor dos resultados que me deu e que ainda poderá me dar: ou melhor, dos resultados já obtidos conheço o valor relativo, certamente não o absoluto. Quando escrevo algo, frequentemente penso que aquilo é muito importante e que sou uma grande escritora. Acho que acontece com todos. Mas há um cantinho de minha alma onde sempre sei muito bem o que sou, isto é, uma pequena, pequena escritora. Juro que sei. Mas não me importa muito. Simplesmente não quero pensar em nomes; percebi que, se me perguntarem " um pequeno escritor como quem?", fico triste ao pensar nos nomes de outros pequenos escritores. Prefiro acreditar que ninguém nunca foi como eu, por menor que tenha sido,  por mais que seja um mosquito ou uma pulga de escritora. O que é importante é ter a convicção de que se trata de um autêntico ofício, uma profissão, uma coisa que será feita por toda a vida. E, sendo um ofício, não é uma brincadeira. Há inúmeros perigos além dos que já citei. Somos continuamente ameaçados por graves perigos já no ato de preencher nossa página. Há o perigo de começarmos a tentar seduzir e cantar de repente. E há o perigo de ludibriar com palavras que de fato não existem em nós, que pescamos por acaso fora de nós e que enfileiramos com destreza porque nos tornamos espertos. Há o perigo de bancar o esperto e enganar. Como veem, trata-se de um ofício bastante complicado: mas é o melhor que há no mundo. Os dias e os casos de nossas vidas, os dias e os casos dos outros que assistimos, leituras e imagens e pensamentos e discursos, tudo isso o sacia e cresce dentro de nós. É um ofício que se nutre de coisas horríveis, devora o melhor e o pior de nossas vidas, tanto nossos sentimentos ruins quanto os sentimentos bons correm em seu sangue. Nutre-se e cresce em nós."

Trecho extraído de As Pequenas Virtudes, de Natalia Ginzburg